EU, NARCISO
A gente já se conhecia há muito tempo, trocamos confidências, dividimos segredos, passamos muitas coisas juntos, mas agora é diferente. Ele sempre pareceu um homem interessante, era alto, tinha porte… Nos afastamos um pouco durante a adolescência desastrosa que passamos nas mesma época. Eu já gostava dele, sim, mas a proximidade que a gente tinha não deixava que essa amizade virasse essa coisa maior, mais forte, que sinto por ele agora.
Foi tudo muito de repente, acordei num dia qualquer desses da semana e ele estava lá escovando os dentes quando eu o vi, ali, alto, com porte, também escovando os dentes na minha frente. Me aproximei do espelho e ele estava lá, me olhando, com a boca suja de espuma. Fiquei um pouco atordoado e lavei meu rosto com a água fria que saía da torneira cromada e quando levantei o rosto estava ele lá, olhando pra mim. Gigante. Ele me olhava de forma que me deixava constrangido. Parecia me entender e eu o desejava de uma forma que eu imagino que só uma criança possa desejar o peito da mãe. Eu já havia ficado nu na sua frente, tínhamos essa liberdade mas, apesar de coberto, foi uma das poucas vezes em que senti o calor da vergonha me subir ao rosto que queimava, queimava.
Não resisti, foi demasiado forte. Me lembrei de quando li sobre o anjo que visitava Santa Teresa D’Ávila e da sua flecha que cortava o peito da Santa e que queimava, queimava… Acho que nunca senti isso por nenhum outro homem. Amei outros homens, claro. Vários. Amei homens por uma noite, alguns, desses que a gente conhece no cinema, no bar. Mas aquele homem olhando nos meus olhos do outro lado do espelho me arrebatou com uma flecha dessas do anjo da Santa. O tempo pareceu parar no segundo em que nossos olhos se cruzaram no vidro e ele me viu ali, de cueca, em frente à torneira cromada que jorrava água na louça branca da pia, com a escova de dentes na mão.
E eu nunca mais saí dalí.
F.H
SOBRE A SIMPLICIDADE / ABOUT SIMPLICITY
A sociedade do espetáculo cada vez mais valoriza a grandiosidade da obra, o material raro e difícil, o teatro do artista personagem. Mostra o sucesso das performances de vida inteira, as maravilhas das instalações nababescas que jamais serão reproduzidas para outros olhares, a paciência chinesa na dificuldade de execução de ideias e eu pergunto:
-Ainda somos atentos aos desenhos-haiku, simples e cheios de significado?
-Ainda somos capazes de entender uma pintura-soneto, breves e cheias de poesia?
-O mundo da arte contemporânea é capaz de saber olhar para o simples com a devida atenção?
Spectacle society increasingly values the grandeur of the work, the difficult and rare material, the play of artist-character. Shows the success of the performances that lasts a whole life, the wonders of huge instalations that will never be reproduced for other eyes, not human patience to stare the difficulty in implementing ideas and I wonder:
-Are we watchfull to the “haiku-drawings”, simple and full of meaning?
-Are we able to understand a “sonnet-paintings”, brief and full of poetry?
-Is the contemporary art world able to know how to look to the simple with proper care?
“Meus desenhos não são erotizantes, meus desenhos questionam o papel do homem através do descarte da identidade masculina em ambientes e situações, ou seja, contextos masculinos - eróticos, às vezes. Tenho como intenção, em todo desenho, perguntar ao espectador: O QUE É SER HOMEM?” - Francisco Hurtz
“My drawings are not eroticizing, my drawings question the role of man through the disposal of masculine identity in environments and situations, in other words, male contexts - erotic sometimes. Through my art I intend ask to the viewer: WHAT IS BEING A MAN? ” - Francisco Hurtz
HOMOEROTISMO NA ARTE CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA
Em meio a toda polêmica envolvendo a questão do homoerotismo nas artes e, consequentemente, na sociedade, achei conveniente publicar a entrevista feita com o querido curador Marcus Lontra Costa feita em junho de 2012, durante a mostra “Espelho Refletido - O Surrealismo e a Arte Contemporânea Brasileira” onde eu tive o prazer de exibir dez desenhos da minha pesquisa sobre corpos e espaços onde a representação do homem tem papel fundamental dentro da poética da minha arte.
A nudez do homem ainda é tabu, mesmo tendo papel notório na história da arte. Durante todo o século XX o corpo do homem ficou restrito a pequenos círculos sociais, especialmente à pornografia gay, reiterando, desse modo, o caráter proibitivo do nu masculino no contexto social. Criou-se disso uma estética própria da cultura gay que reflete os anseios desse grupo durante uma época, mas, que hoje, parece sufocar pela quantidade de imagens erotizantes a produção artística onde o erótico aparece somente como uma das camadas de leitura de uma obra.
Pode se notar que a nudez do homem, assim como toda situação que questione o que é ser homem na contemporaneidade, como a transexualidade e o beijo gay em público, coloca em xeque questões muito mais profundas do que o amor entre dois homens, tranformações corporais / liberdades individuais ou hedonismo visual. O nu masculino sem artifícios exibe o caráter humano, consequentemente frágil, que a cultura machista insiste em negar.
Francisco Hurtz - Existe arte gay?
Marcus Lontra Costa: Adjetivações em arte são sempre perigosas, elas estruturam um pensamento classificatório que acaba por determinar relações de poder autoritárias. Não acredito em arte gay, como não acredito em arte feminina, etc, mas acredito sim haver espaço para a circulação de uma ação artística de caráter homoerótica.
FH -Levando em consideração a sociedade atual e a produção dos artistas contemporâneos, o que significa o homoerotismo na arte hoje?
MLC - Significa marcar e conquistar espaços de representação estética no cenário da arte, onde se valorize o olhar sobre o corpo masculino, onde se defenda a liberdade e a autonomia dos gêneros e suas formas variadas de encanto sedução e beleza.
FH - “A arte consiste em fazer os outros sentirem o que nós sentimos, em libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação” (Fernando Pessoa - Livro do Desassossego) - o homoerotismo pode ser um meio de transformação social?
MLC - Não sei se isso não seria pretensioso, acho que transformação sociais efetivas ocorrerão somente com a mudança de um sistema social e econômico destrutivo e inadequado ao mundo de hoje, mas sem dúvida que conquistar espaços para a ação homoafetiva é importante para se valorizar importante parcela da população que não tem ainda os seus direitos de cidadania respeitados e valorizados
FH - Qual a sua opinião sobre a postura dos museus e instituições em relação à arte homoerótica no Brasil e no mundo?
MLC - Acho que os museus são sensíveis à questão fa arte homoerótica; no Brasil talvez alguns centros culturais sejam refratários, mas é algo a ser enfrentado através da qualidade e do profissionalismo das propostas.
FH - Qual é o nível de aceitação do erotismo e do homoerotismo no mercado de arte atual?
MLC - O mercado começa a responder positivamente a esse tipo de arte e é importante que colecioandores gays invistam parcelas consideráveis de seus investimentos em arte homoerótica de qualidade.
FH - Sinto ainda certo receio em parte dos novos colecionadores, mesmo que sejam gays, ao adquirirem obras homoeróticas. O Brasil hoje está mais careta? A arte brasileira ainda está no armário? Por quê?
MLC - Não acho que o Brasil esteja mais ou menos careta. O Brasil é, essencialmente, hipócrita. Essa é a essência da classe média brasileira, que se revela no homoerotismo, na nudez feminina, enfim, tudo pode contanto que não seja evidenciado. Nada pode ser encarado com respeito e aceito institucionalmente. Somos o país da putaria velada, da sacanagem disfarçada, da semvergonhice (em todos os níveis) envergonhada.
FH - Quais são os artistas brasileiros que se destacam nessa linha de pesquisa?
MLC - Acho que aqui no Rio o Vitor Arruda tem um trabalho muito legal sobre isso, Vinicius Horta também, o Hudinilson aí em Sampa, acho que mesmo alguns artistas não gays fazem alguns trabalhos com certas caracteristicas homoeróticas e eu considero isso muito positivo. O direito à pletinudade homoerórica é um compromisso que deve pertencer a todos e não somente a essa parcela específica.







